PREFÁCIO

A mim, como ancião, é concedido o privilégio de escrever uma palavra de introdução a este pequeno livro, o primeiro escrito por um Irmão mais jovem, jovem no corpo, verdadeiramente, mas não na Alma. Os ensinamentos contidos nele foram-lhe dados por seu Mestre ao prepará-lo para a Iniciação, e foram por ele escritos de memória — lenta e laboriosamente, pois seu inglês no ano passado era bem menos fluente do que é agora. A maior parte é uma reprodução das próprias palavras do Mestre; o que não é tal reprodução verbal é o pensamento do Mestre revestido nas palavras de Seu discípulo. Duas sentenças omitidas foram supridas pelo Mestre. Em outros dois casos, uma palavra omitida foi acrescentada. Fora isso, é inteiramente de Alcyone, seu primeiro presente ao mundo.

Que ele ajude outros como os ensinamentos falados o ajudaram — tal é a esperança com que ele o oferece. Mas o ensinamento só pode ser frutífero se for vivido, como ele o viveu, desde que caiu dos lábios de seu Mestre. Se o exemplo for seguido tanto quanto o preceito, então, para o leitor, como para o escritor, o grande Portal se abrirá, e seus pés serão postos no Caminho.

Annie Besant.

AOS QUE BATEM

Do irreal conduze-me ao Real.
Das trevas conduze-me à Luz.
Da morte conduze-me à Imortalidade.

PREFÁCIO

ESTAS não são minhas palavras; são as palavras do Mestre que me ensinou. Sem Ele nada poderia ter feito, mas através de Sua ajuda pus meus pés no Caminho. Vós também desejais entrar no mesmo Caminho, portanto as palavras que Ele me falou vos ajudarão também, se as obedecerdes. Não basta dizer que são verdadeiras e belas; um homem que deseja ter sucesso deve fazer exatamente o que é dito. Olhar para a comida e dizer que é boa não satisfará um homem faminto; ele deve estender a mão e comer. Assim, ouvir as palavras do Mestre não é suficiente; deveis fazer o que Ele diz, atentando a cada palavra, aproveitando cada insinuação. Se uma insinuação não for aproveitada, se uma palavra for perdida, estará perdida para sempre; pois Ele não fala duas vezes.

Quatro qualificações há para esta senda:

Discernimento
Ausência de Desejos
Boa Conduta
Amor

O que o Mestre me disse sobre cada uma delas tentarei contar-vos.

AOS PÉS DO MESTRE

A primeira destas Qualificações é o Discernimento; e este é geralmente tomado como o discernimento entre o real e o irreal que leva os homens a entrar no Caminho. É isto, mas é também muito mais; e deve ser praticado, não apenas no início do Caminho, mas a cada passo dele, todos os dias, até o fim. Entrais no Caminho porque aprendestes que nele somente podem ser encontradas aquelas coisas que valem a pena ser conquistadas. Homens que não sabem trabalham para ganhar riqueza e poder, mas estes são, no máximo, para uma vida apenas e, portanto, irreais. Há coisas maiores do que estas — coisas que são reais e duradouras; quando uma vez vistes estas, não desejais mais aquelas outras.

Em todo o mundo há apenas dois tipos de pessoas — aquelas que sabem e aquelas que não sabem; e este conhecimento é a coisa que importa. Que religião um homem professa, a que raça pertence — estas coisas não são importantes; a coisa realmente importante é este conhecimento — o conhecimento do plano de Deus para os homens. Pois Deus tem um plano, e esse plano é a evolução. Quando uma vez um homem viu isso e realmente o conhece, não pode deixar de trabalhar por ele e de tornar-se uno com ele, porque é tão glorioso, tão belo. Assim, porque ele sabe, está do lado de Deus, defendendo o bem e resistindo ao mal, trabalhando pela evolução e não pelo egoísmo.

Se ele está do lado de Deus, é um de nós, e não importa em absoluto se se chama hindu ou budista, cristão ou muçulmano, se é indiano ou inglês, chinês ou russo. Aqueles que estão do lado Dele sabem por que estão aqui e o que devem fazer, e estão tentando fazê-lo; todos os outros ainda não sabem o que devem fazer, e por isso muitas vezes agem tolamente, e tentam inventar caminhos para si mesmos que pensam ser agradáveis para si próprios, sem compreender que todos são um, e que portanto somente o que o Uno quer pode ser realmente agradável para qualquer um. Eles seguem o irreal em vez do real. Até que aprendam a distinguir entre esses dois, não se alinharam ao lado de Deus, e por isso esse discernimento é o primeiro passo.

Mas mesmo quando a escolha é feita, deves ainda lembrar que do real e do irreal há muitas variedades; e o discernimento deve ainda ser feito entre o certo e o errado, o importante e o sem importância, o útil e o inútil, o verdadeiro e o falso, o egoísta e o altruísta.

Entre o certo e o errado não deve ser difícil escolher, pois aqueles que desejam seguir o Mestre já decidiram tomar o certo a todo custo. Mas o corpo e o homem são dois, e a vontade do homem nem sempre é o que o corpo deseja. Quando teu corpo deseja algo, para e pensa se tu realmente o desejas. Pois tu és Deus, e tu queres somente o que Deus quer; mas deves cavar fundo dentro de ti mesmo para encontrar o Deus interior, e ouvir a Sua voz, que é a tua voz. Não confundas teus corpos contigo mesmo — nem o corpo físico, nem o astral, nem o mental. Cada um deles fingirá ser o Eu, a fim de obter o que deseja. Mas deves conhecê-los a todos, e conhecer-te a ti mesmo como seu senhor.

Quando há trabalho que deve ser feito, o corpo físico quer descansar, sair para caminhar, comer e beber; e o homem que não sabe diz a si mesmo: "Eu quero fazer essas coisas, e devo fazê-las." Mas o homem que sabe diz: "Isto que quer não sou eu, e deve esperar um pouco." Muitas vezes, quando há uma oportunidade de ajudar alguém, o corpo sente: "Quanto trabalho será para mim; que outro o faça." Mas o homem responde ao seu corpo: "Tu não me impedirás de fazer o bom trabalho."

O corpo é o teu animal — o cavalo que montas. Portanto, deves tratá-lo bem e cuidar dele; não deves sobrecarregá-lo, deves alimentá-lo adequadamente apenas com comida e bebida puras, e mantê-lo estritamente limpo sempre, até da mais mínima partícula de sujeira. Pois sem um corpo perfeitamente limpo e saudável não podes realizar o árduo trabalho de preparação, não podes suportar sua incessante tensão. Mas deve ser sempre tu quem controla esse corpo, não ele que te controla.

O corpo astral tem seus desejos — dezenas deles; quer que fiques irado, que digas palavras duras, que sintas ciúme, que sejas ganancioso por dinheiro, que invejes as posses de outras pessoas, que te entregues à depressão. Todas essas coisas ele quer, e muitas mais, não porque deseje te prejudicar, mas porque gosta de vibrações violentas, e gosta de mudá-las constantemente. Mas tu não queres nenhuma dessas coisas, e portanto deves discernir entre os teus desejos e os do teu corpo.

Teu corpo mental quer pensar-se orgulhosamente separado, pensar muito de si e pouco dos outros. Mesmo quando o afastaste das coisas mundanas, ele ainda tenta

calculai por vós mesmos, para vos fazer pensar
no vosso próprio progresso, em vez de
pensardes na obra do Mestre e
em ajudardes os outros. Quando meditais,
ela tentará fazer-vos pensar
nas muitas coisas diferentes que
ela deseja, em vez da única coisa
que vós desejais. Vós não sois esta
mente, mas ela é vossa para usar; portanto,
aqui também é necessária a discriminação.
Deveis vigiar incessantemente, ou
falhareis.

Entre o certo e o errado, o Ocultismo
não conhece compromisso. A qualquer
custo aparente, aquilo que

AOS PÉS DO MESTRE

é certo deveis fazer; aquilo que é
errado não deveis fazer, não importa
o que os ignorantes possam pensar ou dizer.
Deveis estudar profundamente as leis
ocultas da Natureza e, quando as
conhecerdes, organizar a vossa vida de acordo
com elas, usando sempre a razão e o
bom senso.

Deveis discernir entre
o importante e o sem importância.
Firmes como uma rocha no que diz respeito
ao certo e ao errado, cedei sempre
aos outros nas coisas que não importam.
Pois deveis ser sempre gentis
e bondosos, razoáveis e acomodados,

AOS PÉS DO MESTRE

deixando aos outros a mesma
plena liberdade que necessitais para
vós mesmos.

Procurai ver o que vale a pena fazer;
e lembrai-vos de que não deveis
julgar pelo tamanho da coisa. Uma
coisa pequena que seja diretamente útil
na obra do Mestre vale muito mais
a pena do que uma coisa grande
que o mundo chamaria de boa.
Deveis distinguir não apenas o
útil do inútil, mas o
mais útil do menos útil.
Alimentar os pobres é uma obra boa e nobre
e útil; contudo, alimentar as suas

AOS PÉS DO MESTRE

almas é mais nobre e mais útil do que
alimentar os seus corpos. Qualquer homem rico
pode alimentar o corpo, mas somente aqueles
que sabem podem alimentar a alma. Se vós
sabeis, é vosso dever ajudar os outros
a saber.

Por mais sábios que já sejais,
neste Caminho tendes muito a aprender;
tanto que também aqui
deve haver discriminação, e
deveis pensar cuidadosamente no que
vale a pena aprender. Todo conhecimento é
útil, e um dia tereis todo
o conhecimento; mas enquanto tiverdes
apenas uma parte, cuidai de que seja a

AOS PÉS DO MESTRE

parte mais útil. Deus é Sabedoria
assim como Amor; e quanto mais sabedoria
tiverdes, mais podereis
manifestar d'Ele. Estudai, então, mas
estudai primeiro aquilo que mais vos ajudará
a ajudar os outros. Trabalhai pacientemente
nos vossos estudos, não para que os homens
vos considerem sábios, nem mesmo para que
tenhais a felicidade de ser
sábios, mas porque somente o homem sábio
pode ser sabiamente útil. Por mais
que desejeis ajudar, se sois
ignorantes, podereis fazer mais mal
do que bem.
Deveis distinguir entre

AOS PÉS DO MESTRE

verdade e falsidade; deveis aprender
a ser verdadeiros por inteiro, no pensamento,
na palavra e na ação.

No pensamento primeiro; e isso não é
fácil, pois há no mundo
muitos pensamentos falsos, muitas superstições
tolas, e ninguém que esteja
escravizado por elas pode progredir.
Portanto, não deveis sustentar um
pensamento apenas porque muitas outras
pessoas o sustentam, nem porque tem sido
crença por séculos, nem porque
está escrito em algum livro
que os homens consideram sagrado; deveis
pensar no assunto por vós mesmos e

AOS PÉS DO MESTRE

julgar por vós mesmos se ele é
razoável. Lembrai-vos de que, embora
mil homens concordem sobre um
assunto, se nada souberem sobre esse
assunto, a opinião deles não tem valor.
Aquele que deseja trilhar o Caminho
deve aprender a pensar por si mesmo,
pois a superstição é um dos maiores
males do mundo, um dos grilhões
dos quais deveis libertar-vos
completamente.

O vosso pensamento sobre os outros deve
ser verdadeiro; não deveis pensar deles
o que não sabeis. Não suponhais
que estão sempre pensando

AOS PÉS DO MESTRE

de você. Se um homem faz algo que você pensa que lhe causará dano, ou diz algo que você pensa que se aplica a você, não pense imediatamente: "Ele quis me ferir." Provavelmente ele nunca pensou em você de forma alguma, pois cada alma tem seus próprios problemas e seus pensamentos giram principalmente em torno de si mesma. Se um homem lhe fala com raiva, não pense: "Ele me odeia, ele deseja me magoar." Provavelmente alguém ou alguma outra coisa o deixou irritado, e porque ele por acaso encontra você, ele volta sua raiva para você. Ele está agindo tolamente, pois toda raiva é tolice, mas você não deve, portanto, pensar mal dele.

Quando você se tornar um pupilo do Mestre, poderá sempre testar a verdade de seu pensamento colocando-o ao lado do Dele. Pois o pupilo é uno com seu Mestre, e ele precisa apenas recolocar seu pensamento no pensamento do Mestre para ver imediatamente se ele concorda. Se não concordar, está errado, e ele o muda instantaneamente, pois o pensamento do Mestre é perfeito, porque Ele conhece tudo. Aqueles que ainda não foram aceitos por Ele não podem fazer exatamente isso; mas podem ajudar-se grandemente parando frequentemente para pensar: "O que o Mestre pensaria sobre isto? O que o Mestre diria ou faria sob estas circunstâncias?" Pois você nunca deve fazer, dizer ou pensar aquilo que não possa imaginar o Mestre fazendo, dizendo ou pensando.

Você deve ser verdadeiro também no falar — exato e sem exagero. Nunca atribua motivos a outro; somente seu Mestre conhece seus pensamentos, e ele pode estar agindo por razões que jamais lhe passaram pela mente. Se você ouvir uma história contra alguém, não a repita; pode não ser verdadeira, e mesmo que seja, é mais gentil nada dizer. Pense bem antes de falar, para não cair em imprecisão.

Seja verdadeiro na ação; nunca finja ser diferente do que você é, pois todo fingimento é um obstáculo à pura luz da verdade, que deveria brilhar através de você assim como a luz do sol brilha através de um vidro claro.

Você deve discriminar entre o egoísta e o altruísta. Pois o egoísmo tem muitas formas, e quando você pensa que finalmente o matou em uma delas, ele surge em outra com a mesma força de sempre. Mas, aos poucos, você se tornará tão pleno de pensamento para ajudar os outros que não haverá espaço, nem tempo, para qualquer pensamento sobre si mesmo.

Você deve discriminar ainda de outra maneira. Aprenda a distinguir o Deus em cada um e em tudo, por mais mau que ele ou isso possa parecer na superfície. Você pode ajudar seu irmão através daquilo que tem em comum com ele, e isso é a Vida Divina; aprenda como despertar isso nele, aprenda como apelar a isso nele; assim você salvará seu irmão do erro.

Há muitos para os quais a Qualificação do Desejo é difícil, pois sentem que eles são seus desejos — que se seus desejos distintivos, suas preferências e aversões, lhes forem tirados, não restará nenhum eu. Mas esses são apenas aqueles que não viram o Mestre; na luz de Sua santa Presença todo desejo morre, exceto o desejo de ser como Ele. Contudo, antes que você tenha a felicidade de encontrá-Lo face a face, você pode alcançar a ausência de desejo, se quiser. A Discriminação já lhe mostrou que as coisas que a maioria dos homens deseja, tais como riqueza e poder, não valem a pena ter; quando isso é realmente sentido, não apenas dito, todo desejo por elas cessa.

Até aqui tudo é simples; basta que você compreenda. Mas há alguns que abandonam a busca de objetivos terrenos apenas para ganhar o céu, ou para alcançar a libertação pessoal do renascimento;

neste erro 70a não deve cair
Se você esqueceu o eu por completo, você não pode estar pensando em quando esse eu deveria ser libertado, ou que tipo de céu ele terá. Lembre-se de que todo desejo egoísta prende, por mais elevado que seja seu objeto, e até que você se livre dele, você não está totalmente livre para se dedicar à obra do Mestre.

Quando todos os desejos do eu se forem, ainda pode haver um desejo de ver o resultado do seu trabalho. Se você ajuda alguém, quer ver o quanto o ajudou; talvez até queira que ele também veja, e que fique grato. Mas isso ainda é desejo, e também falta de confiança. Quando você derrama sua força para ajudar, deve haver um resultado, quer você possa vê-lo ou não; se você conhece a Lei, sabe que isso deve ser assim. Portanto, você deve fazer o certo por amor ao certo, não na esperança de recompensa; deve trabalhar por amor ao trabalho, não na esperança de ver o resultado; deve dar-se ao serviço do mundo porque o ama, e não pode deixar de dar-se a ele.

Não tenha desejo por poderes psíquicos; eles virão quando o Mestre souber que é melhor para você tê-los. Forçá-los cedo demais muitas vezes traz em seu encalço muitos problemas; frequentemente seu possuidor é enganado por espíritos da natureza enganosos, ou torna-se vaidoso e pensa que não pode errar; e em qualquer caso, o tempo e a força que se gasta para obtê-los poderiam ser empregados em trabalho para os outros. Eles virão no curso do desenvolvimento — eles devem vir; e se o Mestre vê que seria útil para você tê-los mais cedo, Ele lhe dirá como desenvolvê-los com segurança. Até então, você está melhor sem eles.

Você deve guardar-se também contra certos pequenos desejos que são comuns na vida diária. Nunca deseje brilhar, ou parecer inteligente; não tenha desejo de falar. É bom falar pouco; melhor ainda não dizer nada, a menos que você esteja bem certo de que o que deseja dizer é verdadeiro, bondoso e útil. Antes de falar, pense cuidadosamente se o que você vai dizer tem essas três qualidades; se não tiver, não o diga.

É bom acostumar-se desde já a pensar cuidadosamente antes de falar; pois quando você alcançar a Iniciação, deve vigiar cada palavra, para não contar o que não deve ser contado. Muita conversa comum é desnecessária e tola; quando é fofoca, é perversa. Portanto, acostume-se a ouvir em vez de falar; não ofereça opiniões a menos que diretamente lhe peçam. Uma declaração das Qualificações as apresenta assim: saber, ousar, querer e calar; e a última das quatro é a mais difícil de todas.

Outro desejo comum que você deve reprimir severamente é o desejo de se intrometer nos negócios dos outros. O que outro homem faz, diz ou acredita não é da sua conta, e você deve aprender a deixá-lo absolutamente em paz. Ele tem todo o direito ao livre pensamento, à livre palavra e à livre ação, desde que não interfira com ninguém mais. Você mesmo reivindica a liberdade de fazer o que acha apropriado; deve permitir a mesma liberdade a ele, e quando ele a exercer, você não tem o direito de falar sobre ele.

Se você acha que ele está fazendo algo errado, e pode arranjar uma oportunidade de dizer-lhe, em particular e muito educadamente, por que pensa assim, é possível que possa convencê-lo; mas há muitos casos em que mesmo isso seria uma interferência imprópria. De modo algum você deve ir e fofocar com uma terceira pessoa sobre o assunto, pois isso é uma ação extremamente perversa.

Se você vir um caso de crueldade com uma criança ou um animal, é seu dever interferir. Se vir alguém quebrando a lei do país, deve informar as autoridades. Se

Você é colocado a cargo de outra pessoa para ensiná-la; pode tornar-se seu dever gentilmente dizer-lhe de suas faltas. Exceto em tal caso, cuide da sua própria vida e aprenda a virtude do silêncio.

AOS PÉS DO MESTRE

Estes seis pontos de conduta que são especialmente requeridos são dados pelo Mestre como:

1. Autocontrole quanto à Mente.
2. Autocontrole na Ação.
3. Tolerância.
4. Alegria.
5. Concentração.
6. Confiança.

[Sei que alguns destes são frequentemente traduzidos de modo diferente, assim como os nomes das Qualificações; mas em todos os casos estou usando os nomes que o próprio Mestre empregou ao explicá-los para mim.]

1. Autocontrole quanto à Mente. — A Qualificação do Desejo de não-desejo mostra que o corpo astral deve ser controlado; isto mostra a mesma coisa quanto ao corpo mental. Significa controle do temperamento, para que você não sinta raiva ou impaciência; da própria mente, para que o pensamento possa ser sempre calmo e sereno; e (através da mente) dos nervos, para que sejam o menos irritáveis possível. Este último ponto é difícil, porque quando você tenta se preparar para o Caminho, não pode evitar tornar seu corpo mais sensível, de modo que seus nervos sejam facilmente perturbados por um som ou um choque, e sintam qualquer pressão de forma aguda; mas você deve fazer o seu melhor.

A mente calma significa também coragem, para que você possa enfrentar sem medo as provações e dificuldades do Caminho; significa também firmeza, para que você possa fazer pouco caso dos problemas que vêm à vida de todos, e evitar a incessante preocupação com pequenas coisas na qual muitas pessoas gastam a maior parte do seu tempo. O Mestre ensina que não importa em absoluto o que acontece a um homem externamente; tristezas, problemas, doenças, perdas — tudo isso deve ser como nada para ele, e não deve ser permitido afetar a calma de sua mente. São o resultado de ações passadas, e quando vêm, você deve suportá-las alegremente, lembrando que todo mal é transitório, e que seu dever é permanecer sempre alegre e sereno. Pertencem às suas vidas anteriores, não a esta; você não pode alterá-las, então é inútil preocupar-se com elas. Pense antes no que está fazendo agora, que criará os eventos da sua próxima vida, pois isso você pode alterar.

Nunca se permita sentir tristeza ou depressão. A depressão é errada, porque infecta os outros e torna suas vidas mais difíceis, o que você não tem o direito de fazer. Portanto, se alguma vez ela vier a você, afaste-a imediatamente.

Ainda de outra maneira você deve controlar seu pensamento; não deve deixá-lo vaguear. O que quer que esteja fazendo, fixe seu pensamento nisso, para que seja perfeitamente feito; não deixe sua mente ociosa, mas mantenha bons pensamentos sempre ao fundo dela, prontos para vir à frente no momento em que estiver livre.

Use seu poder de pensamento todos os dias para bons propósitos; seja uma força na direção da evolução. Pense cada dia em alguém que você saiba estar em tristeza, ou sofrimento, ou necessidade de ajuda, e derrame pensamento amoroso sobre ele.

Refreie sua mente do orgulho, pois o orgulho vem apenas da ignorância. O homem que não sabe pensa que é grande, que fez isto ou aquilo de grande; o sábio sabe que só Deus é grande, que todo bom trabalho é feito somente por Deus.

2. Autocontrole na Ação. — Se seu pensamento é o que deveria ser, você terá pouco problema com sua ação. Contudo, lembre-se de que, para ser útil à humanidade, o pensamento deve resultar em ação. Não deve haver preguiça, mas constante atividade em bom trabalho. Mas deve ser o seu próprio dever que você faz — não o de outro homem, a menos que com sua permissão.

e, para guiá-lo. Deixe
cada homem fazer seu próprio trabalho
à sua maneira; esteja sempre pronto
para oferecer ajuda onde for necessária, mas
nunca interfira. Pois para muitas pessoas
a coisa mais difícil do mundo
de aprender é cuidar da própria vida;
mas é exatamente isso que você
deve fazer.

Porque você tenta assumir um trabalho
superior, não deve esquecer seus
deveres ordinários, pois até que
eles sejam cumpridos, você não está livre para outro
serviço. Você não deveria assumir novos
deveres mundanos; mas aqueles que você

já assumiu, você
deve cumprir perfeitamente — todos os deveres
claros e razoáveis que você mesmo
reconhece, isto é, não deveres
imaginários que outros tentam impor
sobre você. Se você há de ser d'Ele,
deve fazer o trabalho comum melhor
que os outros, não pior; porque você
deve fazê-lo também por amor a Ele.

3. Tolerância. — Você deve sentir perfeita
tolerância por todos, e um interesse
sincero nas crenças daqueles de
outra religião, tanto quanto
na sua própria. Pois a religião deles é um
caminho para o Altíssimo, assim como a sua é.

E para ajudar a todos, você deve compreender
a todos.

Mas para alcançar essa perfeita
tolerância, você mesmo deve primeiro estar
livre de fanatismo e superstição.
Você deve aprender que nenhuma cerimônia
é necessária; caso contrário, pensará
que é de alguma forma melhor do que aqueles
que não as realizam. Contudo, você
não deve condenar outros que ainda
se apegam às cerimônias. Deixe-os fazer
como quiserem; apenas não devem
interferir com você, que conhece a verdade —
não devem tentar impor sobre você
aquilo que você já superou.

Seja indulgente com tudo; seja
bondoso para com tudo.

Agora que seus olhos estão abertos,
algumas de suas antigas crenças, suas antigas
cerimônias, podem parecer-lhe absurdas;
talvez, de fato, realmente o sejam.
Contudo, embora você não possa mais
participar delas, respeite-as
em prol daquelas boas
almas para quem ainda são importantes.
Elas têm seu lugar, têm sua
utilidade; são como aquelas linhas
duplas que o guiaram quando
criança a escrever reto e uniformemente,
até você aprender a escrever muito melhor

e mais livremente sem elas.
Houve um tempo em que você precisava
delas; mas agora esse tempo passou.

Um grande Mestre certa vez escreveu:
"Quando eu era criança, falava como criança,
compreendia como criança, pensava como criança;
mas quando me tornei homem, deixei as coisas de criança."
Contudo, aquele que esqueceu sua infância
e perdeu a simpatia com as crianças não é
o homem que pode ensiná-las ou ajudá-las.
Portanto, olhe com bondade, gentileza e tolerância
para todos; mas para todos igualmente, budista ou

hindu, jainista ou judeu, cristão ou
muçulmano.

4. Alegria. — Você deve suportar seu
karma alegremente, seja ele qual
for, considerando uma honra que o
sofrimento venha a você, porque
mostra que os Senhores do Karma
acham que você merece ajuda. Por mais difícil
que seja, agradeça que não seja pior.
Lembre-se de que você é de
pouca utilidade para o Mestre até
que seu karma maligno seja eliminado,
e você esteja livre. Ao oferecer-se
a Ele, você pediu que seu
karma fosse acelerado, e assim agora

em uma ou duas vidas você trabalha
através daquilo que de outra forma poderia ter
sido distribuído por cem. Mas para
tirar o melhor proveito disso, você
deve suportá-lo alegremente, com satisfação.

Ainda outro ponto. Você deve
renunciar a todo sentimento de posse.
O karma pode tirar de você as
coisas que você mais gosta — até mesmo as
pessoas que você mais ama.
Mesmo assim, você deve ser alegre — pronto
para abrir mão de qualquer coisa e de tudo.
Frequentemente o Mestre precisa derramar
Sua força sobre outros através
de Seu servo: Ele não pode fazer isso se

o servo ceder à depressão. Portanto,
a alegria deve ser a regra.

5. Concentração. — A única coisa
que deves pôr diante de ti é fazer a obra do Mestre. O que quer que
mais surja em teu caminho para fazer, isso ao menos nunca deves esquecer.
Contudo, nada mais pode surgir em teu caminho, pois todo trabalho útil e
altruísta é a obra do Mestre, e deves fazê-lo por amor a Ele. E deves dar
toda a tua atenção a cada tarefa enquanto a realizas, para que seja o teu
melhor esforço. O mesmo Instrutor também escreveu: "Tudo o que fizerdes,
fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens." Pensa em como
farias um trabalho se soubesses que o Mestre viria imediatamente para
examiná-lo; exatamente dessa maneira deves fazer todo o teu trabalho.
Aqueles que mais sabem compreenderão melhor tudo o que esse versículo
significa. E há outro semelhante, muito mais antigo: "Tudo o que a tua
mão encontrar para fazer, faze-o com todas as tuas forças."

Concentração significa também que nada jamais te desviará, nem por um
momento, do Caminho no qual entraste. Nenhuma tentação,
nenhum prazer mundano, nem mesmo afeições mundanas, jamais deverão
afastar-te. Pois tu mesmo deves tornar-te uno com o Caminho; ele deve ser
tão parte da tua natureza que o sigas sem precisar pensar nele, e não possas
desviar-te. Tu, a Mônada, decidiste isso; afastar-te dele seria
afastar-te de ti mesmo.

6. Confiança. — Deves confiar no teu Mestre; deves confiar em ti
mesmo. Se viste o Mestre, confiarás Nele ao extremo,
através de muitas vidas e mortes. Se
ainda não O viste, deves mesmo assim tentar realizá-Lo e confiar
Nele, porque se não o fizeres, nem Ele poderá ajudar-te. A menos que haja
perfeita confiança, não poderá haver o perfeito fluxo de amor e poder.

Deves confiar em ti mesmo. Dizes que te conheces bem demais?
Se sentes isso, não te conheces; conheces apenas o fraco invólucro
exterior, que caiu muitas vezes na lama. Mas tu — o verdadeiro tu — és
uma centelha do próprio fogo de Deus, e Deus, que é Todo-Poderoso, está em ti, e
por causa disso não há nada que
não possas fazer se quiseres. Dize a ti mesmo: "O que o homem fez,
o homem pode fazer. Sou um homem, mas também Deus no homem; posso
fazer esta coisa, e farei." Pois a tua vontade deve ser como
aço temperado, se quiseres trilhar o Caminho.

IV

De todas as Qualificações, o Amor
é a mais importante, pois se for forte o bastante em um homem,
força-o a adquirir todas as outras, e todas as outras sem ele nunca
seriam suficientes. Frequentemente é traduzido como um intenso desejo de
libertação do ciclo de nascimentos e mortes, e de união com Deus.
Mas colocá-lo dessa forma soa egoísta, e dá apenas parte do
significado. Não é tanto desejo
quanto vontade, resolução, determinação. Para produzir seu resultado, essa resolução deve
preencher toda a tua natureza, de modo a não deixar espaço para nenhum outro sentimento.
É de fato a vontade de ser uno com Deus, não para que escapes
do cansaço e do sofrimento, mas para que, por causa do teu profundo
amor por Ele, possas agir com Ele e como Ele age. Porque Ele é
Amor, tu, se quiseres tornar-te uno com Ele, deves ser preenchido com perfeito
altruísmo e amor também.

Na vida diária, isso significa duas coisas: primeiro, que deves ter cuidado
para não causar dano a nenhum ser vivo;
segundo, que deves estar sempre atento a uma oportunidade de ajudar.

Primeiro, não causar dano. Três pecados há que causam mais dano
do que tudo o mais no mundo — a fofoca, a crueldade e a superstição — porque
são pecados contra o amor. Contra esses três, o homem que quer
encher seu coração com o amor de Deus deve vigiar incessantemente.

Vê o que a fofoca faz. Começa com o mau pensamento, e isso em si
já é um crime. Pois em todos e em tudo há o bem; em

Um e em tudo há o mal.
Qualquer um deles podemos fortalecer
pensando nele, e assim podemos
ajudar ou dificultar a evolução; podemos
fazer a vontade do Logos ou podemos
resistir a Ele. Se você pensa no mal
em outro, você está fazendo ao
mesmo tempo três coisas más:

(1) Você está enchendo sua
vizinhança com pensamentos maus em vez
de bons pensamentos, e assim está
aumentando a tristeza do mundo.

(2) Se há naquele homem o
mal que você pensa, você está
fortalecendo-o e alimentando-o; e
assim você está tornando seu irmão
pior em vez de melhor. Mas geralmente
o mal não está lá, e você
apenas o imaginou; e então seu
mau pensamento tenta seu irmão
a fazer o mal, pois se ele ainda não é perfeito,
você pode torná-lo aquilo que
você pensou dele.

(3) Você enche sua própria mente
com maus pensamentos em vez de bons;
e assim você dificulta seu próprio crescimento, e
torna a si mesmo, para aqueles que
podem ver, um objeto feio e doloroso em
vez de um belo e amável.

Não contente em ter feito todo
esse dano a si mesmo e à sua vítima,
o mexeriqueiro tenta com todas as suas
forças fazer outros homens parceiros em
seu crime. Ansiosamente ele conta
sua história maligna a eles, esperando que
eles acreditem; e então eles se juntam
a ele em derramar maus
pensamentos sobre o pobre sofredor.
E isso continua dia após dia, e
é feito não por um homem, mas por milhares.
Você começa a ver quão baixo,
quão terrível pecado é este? Você
deve evitá-lo completamente. Nunca
fale mal de ninguém; recuse-se a ouvir
quando qualquer outro falar mal de
outro, mas diga gentilmente: "Talvez
isto não seja verdade, e mesmo que seja, é
mais bondoso não falar sobre isso."

Então quanto à crueldade. Esta é
de dois tipos: intencional e não
intencional. Crueldade intencional é
propositadamente causar dor a outro ser
vivo; e esse é o maior de todos
os pecados — obra de um demônio em vez
de um homem. Você diria que nenhum
homem poderia fazer tal coisa; mas homens
têm feito isso frequentemente, e estão diariamente
fazendo agora. Os inquisidores o fizeram;
muitas pessoas religiosas o fizeram em
nome de sua religião. Os vivisseccionistas
o fazem; muitos professores
o fazem habitualmente. Todas essas pessoas
tentam desculpar sua brutalidade
dizendo que é o costume; mas um
crime não deixa de ser um crime
porque muitos o cometem. O Karma
não leva em conta o costume; e o
karma da crueldade é o mais
terrível de todos. Na Índia, ao menos,
não pode haver desculpa para tais costumes,
pois o dever da inofensividade é
bem conhecido de todos. O destino do
cruel deve cair também sobre todos
aqueles que saem intencionalmente para matar as
criaturas de Deus, e chamam isso de "esporte".

Coisas como essas você não
faria, eu sei; e por amor
a Deus, quando a oportunidade
se oferecer, você falará claramente
contra elas. Mas há uma
crueldade na fala tanto quanto no ato;
e um homem que diz uma palavra com
a intenção de ferir outro é
culpado deste crime. Isso também
você não faria; mas às vezes uma palavra
descuidada faz tanto dano quanto uma
maliciosa. Então você deve estar
em guarda contra a crueldade
não intencional.

Ela vem geralmente da falta de
pensamento. Um homem está tão cheio de
ganância e avareza que ele nunca
pensa no sofrimento que
causa aos outros ao pagar muito
pouco, ou ao deixar sua esposa e filhos
meio famintos. Outro pensa apenas
em sua própria luxúria, e pouco se importa
quantas almas e corpos ele arruína ao
satisfazê-la. Apenas para poupar a si mesmo
alguns minutos de trabalho, um homem
não paga seus trabalhadores no
dia adequado, não pensando nas
dificuldades que ele lhes traz.
Tanto sofrimento é causado apenas
pelo descuido — por esquecer de

Pense em como uma ação afetará os outros. Mas o karma nunca esquece, e não leva em conta o fato de que os homens esquecem. Se desejais entrar no Caminho, deveis pensar nas consequências do que fazeis, para não serdes culpados de crueldade impensada.

A superstição é outro grande mal, e tem causado muita crueldade terrível. O homem que é escravo dela despreza os outros que são mais sábios, e tenta forçá-los a fazer como ele faz. Pensai na terrível matança produzida pela superstição de que os animais deveriam ser sacrificados, e pela superstição ainda mais cruel de que o homem precisa de carne para se alimentar. Pensai no tratamento que a superstição tem dispensado às classes oprimidas em nossa amada Índia, e vede nisso como essa qualidade maligna pode gerar crueldade sem coração mesmo entre aqueles que conhecem o dever da fraternidade. Muitos crimes foram cometidos pelos homens em nome do Deus do Amor, movidos por esse pesadelo de superstição; sede, portanto, muito cuidadosos para que nenhum traço dela permaneça em vós.

Esses três grandes crimes deveis evitar, pois são fatais a todo progresso, porque pecam contra o amor. Mas não basta apenas abster-se do mal; deveis ser ativos em fazer o bem. Deveis estar tão cheios do intenso desejo de servir que estejais sempre atentos para prestá-lo a todos ao vosso redor — não apenas ao homem, mas até mesmo aos animais e às plantas. Deveis prestá-lo nas pequenas coisas todos os dias, para que o hábito se forme, e assim não percais a rara oportunidade quando a grande coisa se oferecer para ser feita. Pois se anseiais ser um com Deus, não é por vossa própria causa; é para que possais ser um canal através do qual o Seu amor possa fluir e alcançar vossos semelhantes.

Aquele que está no Caminho não existe para si mesmo, mas para os outros; ele se esqueceu de si mesmo, a fim de poder servi-los. Ele é como uma pena na mão de Deus, através da qual o Seu pensamento pode fluir e encontrar para si uma expressão aqui embaixo, que sem uma pena não poderia ter. Contudo, ao mesmo tempo, ele é também uma chama viva de fogo, irradiando sobre o mundo o Amor Divino que enche o seu coração.

A sabedoria que vos capacita a ajudar, a vontade que dirige a sabedoria, o amor que inspira a vontade — essas são vossas qualificações. Vontade, Sabedoria e Amor são os três aspectos do Logos; e vós, que desejais alistar-vos para servi-Lo, deveis manifestar esses aspectos no mundo.